Espírito de manada. Há povos em que é forte essa tendência de seguir modismos, adotar expressões, dançar conforme a música. A música pode até ser muito ruim, mas se todo mundo tá dançando, quem sou eu para não requebrar? E assim, são construídos consensos e verdades inabaláveis. Contrariá-las é correr o risco de ser tido ou como herege, ou como maluco, ou como um chato implicante.Acho que eu gosto mesmo é de implicar. Faz tempo que estou incomodado com esse tal “risco de morte” que substituiu o velho e bom “risco de vida”. Chegou a hora de implicar com isso.
Alguém aí ainda se lembra que “risco de vida” era expressão corriqueira? Agora, 99% dos jornais, telejornais e blogs mataram o “risco de vida”, considerada expressão não grata e abominável. Mas eu, como bom chato, não me conformo, jamais me conformarei! Cada vez que escuto um apresentador de telejornal proferir o tal “risco de morte”, tenho vontade de perguntar-lhe se acaso ele ou ela estão brincando comigo. “Tenha personalidade!”, é o que eu gostaria de dizer-lhe. “Que espírito de manada é esse? Reaja, cidadão!”. Não adianta, mesmo que o cidadão ou cidadã pudesse me ouvir, seu espírito, orientado pelo firme e nobre propósito de apagar da memória da nação o famigerado “risco de vida”, desprezaria meus apelos irados.
Não sei exatamente como esse negócio de “risco de morte” começou, mas suspeito. Acho que tudo começou com uma piada. Uma piada que alguém levou a sério. A primeira vez que topei com o “risco de morte” foi numa charge do Millôr Fernandes. Se a memória não me trai, o desenho mostrava um sujeito afundando em areia movediça. Duas outras pessoas assistiam a cena e um deles comentou: “Acho que ele está correndo risco de vida”. O outro respondeu: “No meu entender ele corre mesmo é risco de morte.” Caí na gargalhada. Meus poucos leitores, vejam só que coisa inusitada, a piada do Millôr simplesmente deixou de fazer sentido! Não tem mais graça! A charge poderia até aparecer estampada em alguma gramática para ilustrar aquilo que, no entender bovino de alguns, é um erro crasso. (E eu é que sou o chato? Pelo menos eu nunca destruí uma piada ou uma pobre charge!).
Em nome da “objetividade” ou da “lógica” o “risco de vida” deve ser condenado à morte, mas não apenas isso, ele deve ser banido da nossa memória, para que não nos lembremos daqueles tempos obscuros em que usávamos corriqueiramente a expressão (Oh! Vergonha!).
O idiota da objetividade é um exemplar do rol de personagens de Nelson Rodrigues. O tal idiota foi criado por Nelson como uma crítica à transformação do texto jornalístico, cada vez mais objetivo, seco, sem emoção ou subjetividade, rigidamente estruturado conforme os critérios editoriais. O fato é simplesmente narrado, sem qualquer espaço para subjetivismo. Dizia Nelson que o idiota da objetividade "é capaz de reescrever Dante. Botem um Dante na mesa do copidesque, e não ficará vírgula sobre vírgula da Divina Comédia".
Para mim, esse negócio horrível de “risco de morte” tem um pouco a ver com essa objetividade do idiota e com nosso espírito de manada. Alguém teve a infeliz idéia, alguns concordaram que tudo era muito “lógico”, fazia todo o sentido (tanto quanto uma reforma ortográfica). O resto apenas aquiesceu bovinamente, aliás, como é de praxe acontecer por essas bandas (“fala sério!”, ora, “com certeza!”).
Segue texto delicioso do professor Cláudio Moreno sobre o tema (ah! não é apenas um texto, é também uma surra).
Risco de Vida
Cláudio Moreno
Um educado leitor escreve para estranhar que esta página utilize a expressão risco de vida, alegando que um professor de renome já corrigiu este equívoco de uma vez por todas: "É risco de morte, pois só pode correr risco de vida um morto que está em condições de ressuscitar". Sinto dizer-te, meu polido leitor, mas não é bem assim que funciona. A experiência me ensinou a suspeitar, de antemão, de tais "descobertas" adventícias, feitas por essas autoridades que aparecem para me anunciar, com aquele olhar esgazeado do homem que viu a bomba, que eu estive cego e surdo todo esse tempo. Talvez não saibas, mas o Brasil assiste agora a uma nova safra desses Antônios Conselheiros da gramática: volta e meia, aparece um maluco disposto a reinventar a roda e a encontrar "erros" no Português que já era falado pela avó da minha bisavó e pelos demais antepassados - incultos, cultos ou cultíssimos. O que esses fanáticos não sabem (até porque, em sua grande maioria, pouco estudo têm de Lingüística e de Gramática) é que, mesmo que a forma que eles defendem seja aceitável, a outra, que eles condenam, já existia muito antes do dia em que eles próprios vieram a este mundo para nos incomodar.
Os falantes do Português sempre interpretaram esta expressão como a forma elíptica de "risco de perder a vida". Ao longo dos séculos, todos os que a empregaram e todos os que a ouviram sabiam exatamente do que se tratava: pôr a vida em risco, arriscar a vida. Assim aparece na Corte na Aldeia, de Francisco Rodrigues Lobo; nas Décadas, de João de Barros; em Machado ("Salvar uma criança com risco da própria vida..." - Quincas Borba); em Joaquim Nabuco; em Alencar; em Coelho Neto; em Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós; na Bíblia, traduzida por João Ferreira de Almeida no séc. 17 ("Ainda que cometesse mentira a risco da minha vida, nem por isso coisa nenhuma se esconderia ao rei" - II Samuel 18:13); e assim por diante. Além disso, nossas leis falam em "gratificação por risco de vida", o Código de Ética Médico fala de "iminente risco de vida" e o dicionário do Houaiss, no verbete "risco", exemplifica com risco de vida. E agora, meu caro leitor? Achas mesmo que o teu renomado professor, se pudesse entrar em contato com o espírito de Machado ou de Eça, teria a coragem de dizer-lhes nas barbas que eles tinham errado durante toda a sua vida literária - e que ele estava só esperando a oportunidade para dizer o mesmo para Camilo Castelo Branco, Joaquim Nabuco e outros escritores que não tinham tido a sorte de estudar na mesma gramática em que ele estudou?
Nota, porém, que a defesa que faço do risco de vida não implica a condenação do risco de morte, que também tem seus adeptos - entre eles, o padre Manuel Bernardes e o mesmo Camilo Castelo Branco, que, nesta questão, acendia uma vela ao santo e outra ao diabo. Na maioria das vezes, seu emprego parece obedecer a um critério sutilmente diferente, pois esta forma vem freqüentemente adjetivada (risco de morte súbita, de morte precoce, de morte indigna) ou sugere uma estrutura verbal subjacente (risco de morte por afogamento, de morte por parada respiratória, de morte no 1º ano de vida, etc.) - ficando evidente a impossibilidade de optar por risco de vida nessas duas situações. Como se vê, somos obrigados a reconhecer que também é moeda boa, de livre curso no país, a única a ser usada em determinadas construções - mas não é um substituto obrigatório do consagradíssimo risco de vida. Aliás, a disputa entre as duas formas não é privilégio nosso, pois ocorre também no Inglês (risk of life, risk of death), no Espanhol (riesgo de vida, riesgo de muerte) e no Francês (risque de vie, risque de mort).
O equívoco da renomada (famigerada?) autoridade que mencionas, prezado leitor, foi acreditar ingenuamente que a nossa língua existe para expressar nosso pensamento, devendo, portanto, obedecer aos critérios da lógica - teoria que andou muito em voga lá pelo final do séc. 18 e que foi abandonada junto com a tabaqueira de rapé e o chapéu de três bicos. Por este raciocínio, se enterro um prego na madeira e enfio a linha na agulha, não poderia enterrar o chapéu na cabeça e enfiar o sapato no pé (e sim a cabeça no chapéu e o pé no sapato...); um líquido ótimo para baratasdeveria deixá-las alegres e robustas, e não matá-las. A língua não pode estar submetida à lógica porque é incomensuravelmente maior do que ela, já que lhe cabe também exprimir as emoções, as fantasias, as incertezas e as ambigüidades que recheiam o animal humano. O Português atual, portanto, é o produto dessa riquíssima mistura, sedimentada ao longo de séculos de uso e aprovada por esse plebiscito gigantesco de novecentos anos, que deve ser ouvido com respeito e não pode ser alterado por deduções arrogantes e superficiais.
A crônica americana de grandes feitos empresariais, como a virada da General Electric promovida por Jack Welch, ou a da Apple, de Steve Jobs, tem agora seu similar no ramo da segurança pública. William Bratton, 62 anos, já era famoso quando conseguiu vencer o crime em Nova York, na década passada. Sua mais recente empreitada foi recolocar o Departamento de Polícia de Los Angeles no trilho. Graças a seu talento para estruturar polícias, alcançou fama inigualável entre os policiais do mundo inteiro. No mês passado, ele trocou o comando do LAPD, que ocupou por sete anos, pela carreira de consultor. Suas lições nesse ramo são preciosas. Bratton falou ao editor Ronaldo França, pouco antes de se aposentar, sobre o que falta às polícias brasileiras para que ganhem em eficiência.
_e_(_Zonotrichia_Capensis_).jpg)

