terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A objetividade dos idiotas (ou, sobre uma charge e o espírito bovino)

Espírito de manada. Há povos em que é forte essa tendência de seguir modismos, adotar expressões, dançar conforme a música. A música pode até ser muito ruim, mas se todo mundo tá dançando, quem sou eu para não requebrar? E assim, são construídos consensos e verdades inabaláveis. Contrariá-las é correr o risco de ser tido ou como herege, ou como maluco, ou como um chato implicante.Acho que eu gosto mesmo é de implicar. Faz tempo que estou incomodado com esse tal “risco de morte” que substituiu o velho e bom “risco de vida”. Chegou a hora de implicar com isso.

Alguém aí ainda se lembra que “risco de vida” era expressão corriqueira? Agora, 99% dos jornais, telejornais e blogs mataram o “risco de vida”, considerada expressão não grata e abominável. Mas eu, como bom chato, não me conformo, jamais me conformarei! Cada vez que escuto um apresentador de telejornal proferir o tal “risco de morte”, tenho vontade de perguntar-lhe se acaso ele ou ela estão brincando comigo. “Tenha personalidade!”, é o que eu gostaria de dizer-lhe. “Que espírito de manada é esse? Reaja, cidadão!”. Não adianta, mesmo que o cidadão ou cidadã pudesse me ouvir, seu espírito, orientado pelo firme e nobre propósito de apagar da memória da nação o famigerado “risco de vida”, desprezaria meus apelos irados.

Não sei exatamente como esse negócio de “risco de morte” começou, mas suspeito. Acho que tudo começou com uma piada. Uma piada que alguém levou a sério. A primeira vez que topei com o “risco de morte” foi numa charge do Millôr Fernandes. Se a memória não me trai, o desenho mostrava um sujeito afundando em areia movediça. Duas outras pessoas assistiam a cena e um deles comentou: “Acho que ele está correndo risco de vida”. O outro respondeu: “No meu entender ele corre mesmo é risco de morte.” Caí na gargalhada. Meus poucos leitores, vejam só que coisa inusitada, a piada do Millôr simplesmente deixou de fazer sentido! Não tem mais graça! A charge poderia até aparecer estampada em alguma gramática para ilustrar aquilo que, no entender bovino de alguns, é um erro crasso. (E eu é que sou o chato? Pelo menos eu nunca destruí uma piada ou uma pobre charge!).

Em nome da “objetividade” ou da “lógica” o “risco de vida” deve ser condenado à morte, mas não apenas isso, ele deve ser banido da nossa memória, para que não nos lembremos daqueles tempos obscuros em que usávamos corriqueiramente a expressão (Oh! Vergonha!).

O idiota da objetividade é um exemplar do rol de personagens de Nelson Rodrigues. O tal idiota foi criado por Nelson como uma crítica à transformação do texto jornalístico, cada vez mais objetivo, seco, sem emoção ou subjetividade, rigidamente estruturado conforme os critérios editoriais. O fato é simplesmente narrado, sem qualquer espaço para subjetivismo. Dizia Nelson que o idiota da objetividade "é capaz de reescrever Dante. Botem um Dante na mesa do copidesque, e não ficará vírgula sobre vírgula da Divina Comédia".

Para mim, esse negócio horrível de “risco de morte” tem um pouco a ver com essa objetividade do idiota e com nosso espírito de manada. Alguém teve a infeliz idéia, alguns concordaram que tudo era muito “lógico”, fazia todo o sentido (tanto quanto uma reforma ortográfica). O resto apenas aquiesceu bovinamente, aliás, como é de praxe acontecer por essas bandas (“fala sério!”, ora, “com certeza!”).

Segue texto delicioso do professor Cláudio Moreno sobre o tema (ah! não é apenas um texto, é também uma surra).

Risco de Vida

Cláudio Moreno

Um educado leitor escreve para estranhar que esta página utilize a expressão risco de vida, alegando que um professor de renome já corrigiu este equívoco de uma vez por todas: "É risco de morte, pois só pode correr risco de vida um morto que está em condições de ressuscitar". Sinto dizer-te, meu polido leitor, mas não é bem assim que funciona. A experiência me ensinou a suspeitar, de antemão, de tais "descobertas" adventícias, feitas por essas autoridades que aparecem para me anunciar, com aquele olhar esgazeado do homem que viu a bomba, que eu estive cego e surdo todo esse tempo. Talvez não saibas, mas o Brasil assiste agora a uma nova safra desses Antônios Conselheiros da gramática: volta e meia, aparece um maluco disposto a reinventar a roda e a encontrar "erros" no Português que já era falado pela avó da minha bisavó e pelos demais antepassados - incultos, cultos ou cultíssimos. O que esses fanáticos não sabem (até porque, em sua grande maioria, pouco estudo têm de Lingüística e de Gramática) é que, mesmo que a forma que eles defendem seja aceitável, a outra, que eles condenam, já existia muito antes do dia em que eles próprios vieram a este mundo para nos incomodar.

Os falantes do Português sempre interpretaram esta expressão como a forma elíptica de "risco de perder a vida". Ao longo dos séculos, todos os que a empregaram e todos os que a ouviram sabiam exatamente do que se tratava: pôr a vida em risco, arriscar a vida. Assim aparece na Corte na Aldeia, de Francisco Rodrigues Lobo; nas Décadas, de João de Barros; em Machado ("Salvar uma criança com risco da própria vida..." - Quincas Borba); em Joaquim Nabuco; em Alencar; em Coelho Neto; em Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós; na Bíblia, traduzida por João Ferreira de Almeida no séc. 17 ("Ainda que cometesse mentira a risco da minha vida, nem por isso coisa nenhuma se esconderia ao rei" - II Samuel 18:13); e assim por diante. Além disso, nossas leis falam em "gratificação por risco de vida", o Código de Ética Médico fala de "iminente risco de vida" e o dicionário do Houaiss, no verbete "risco", exemplifica com risco de vida. E agora, meu caro leitor? Achas mesmo que o teu renomado professor, se pudesse entrar em contato com o espírito de Machado ou de Eça, teria a coragem de dizer-lhes nas barbas que eles tinham errado durante toda a sua vida literária - e que ele estava só esperando a oportunidade para dizer o mesmo para Camilo Castelo Branco, Joaquim Nabuco e outros escritores que não tinham tido a sorte de estudar na mesma gramática em que ele estudou?

Nota, porém, que a defesa que faço do risco de vida não implica a condenação do risco de morte, que também tem seus adeptos - entre eles, o padre Manuel Bernardes e o mesmo Camilo Castelo Branco, que, nesta questão, acendia uma vela ao santo e outra ao diabo. Na maioria das vezes, seu emprego parece obedecer a um critério sutilmente diferente, pois esta forma vem freqüentemente adjetivada (risco de morte súbita, de morte precoce, de morte indigna) ou sugere uma estrutura verbal subjacente (risco de morte por afogamento, de morte por parada respiratória, de morte no 1º ano de vida, etc.) - ficando evidente a impossibilidade de optar por risco de vida nessas duas situações. Como se vê, somos obrigados a reconhecer que também é moeda boa, de livre curso no país, a única a ser usada em determinadas construções - mas não é um substituto obrigatório do consagradíssimo risco de vida. Aliás, a disputa entre as duas formas não é privilégio nosso, pois ocorre também no Inglês (risk of life, risk of death), no Espanhol (riesgo de vida, riesgo de muerte) e no Francês (risque de vie, risque de mort).

O equívoco da renomada (famigerada?) autoridade que mencionas, prezado leitor, foi acreditar ingenuamente que a nossa língua existe para expressar nosso pensamento, devendo, portanto, obedecer aos critérios da lógica - teoria que andou muito em voga lá pelo final do séc. 18 e que foi abandonada junto com a tabaqueira de rapé e o chapéu de três bicos. Por este raciocínio, se enterro um prego na madeira e enfio a linha na agulha, não poderia enterrar o chapéu na cabeça e enfiar o sapato no pé (e sim a cabeça no chapéu e o pé no sapato...); um líquido ótimo para baratasdeveria deixá-las alegres e robustas, e não matá-las. A língua não pode estar submetida à lógica porque é incomensuravelmente maior do que ela, já que lhe cabe também exprimir as emoções, as fantasias, as incertezas e as ambigüidades que recheiam o animal humano. O Português atual, portanto, é o produto dessa riquíssima mistura, sedimentada ao longo de séculos de uso e aprovada por esse plebiscito gigantesco de novecentos anos, que deve ser ouvido com respeito e não pode ser alterado por deduções arrogantes e superficiais.

http://198.106.73.59/01/01_risco.htm

domingo, 29 de novembro de 2009

A guerra contra o crime

O Brasil é um dos países com maior taxa de homicídios. O tempo passa, mas o problema continua. O índice de homicídios e outros crimes violentos continua alto. Cidades outrora tranqüilas, como a nossa Maceió, de repente se vêem diante de um quadro de aumento repentino da criminalidade. Sequestros, assassinatos, assaltos aumentam em quantidade e o cidadão tenta se proteger da maneira que pode. Atenção redobrada ao sair à rua, muros altos, cercas elétricas, segurança particular. A paisagem da cidade mudou. No meu bairro, não há rua em que se passe sem que se note as cercas eletrificadas a enfeitar os muros.

Muito se fala no problema da “violência” (criminalidade é o nome correto), mas poucas soluções realmente efetivas são propostas. Não são poucas as declarações em que o aumento no investimento em “políticas sociais” é apontado como solução para diminuir os índices de criminalidade. Não se tem notícia no mundo que o crime tenha sido derrotado com construção de quadras poliesportivas ou com escolas de batucada. Mas, muitos dos entendidos no assunto insistem na tese de que o crime – seja ele organizado ou não – só pode ser vencido com uma maior presença do estado em áreas pobres, sendo que essa presença ocorrerá na forma de escolas, calçamento, saneamento básico, parcerias com ONGs de algum “mano” poeta da periferia. Tudo isso é bom. Mas não é resposta para o problema do crime.

Peça fundamental para combater o crime – óbvio – é uma polícia preparada e eficiente. A revista Veja dessa semana traz uma importante reportagem sobre o tema, resultado de uma pesquisa encomendada ao instituto CNT/Sensus. Na pesquisa, os policiais de vários estados avaliam a própria polícia. “A polícia é despreparada, mal equipada, mal remunerada, e a corrupção grassa nas corporações”, é este o diagnóstico do policial brasileiro a respeito da instituição em que trabalha. Esse diagnóstico confirma a impressão que o cidadão comum tem da polícia brasileira.

A reportagem também traz exemplos de sucesso na redução dos índices de criminalidade. O estado de São Paulo conseguiu reduzir em 79% o índice de homicídios/100.000 habitantes num período de dez anos (1999 a 2009). A PM paulista possui o mais bem estruturado sistema de informações criminais do país, o Infocrim, que inclui no seu banco de informações os dados de todos os boletins de ocorrência do estado, além de fornecer o mapeamento das ocorrências. A polícia civil paulista também se vale de softwares e sistema de informações. O índice de solução dos casos de homicídio é de 48%. A polícia do Rio, por exemplo, resolve apenas 4% dos casos.

Minas Gerais é outro exemplo. O número de crimes violentos na capital Belo Horizonte caiu de 44.000 em 2003, para 22.300 em 2009, uma redução de 50% em apenas 6 anos.

Mas o que há por trás desses dados positivos? O motivo do decaimento dos índices é uma mudança no modelo de gestão das polícias, que agora se valem de planejamento com base em estatísticas (o chamado CompStat). Desenvolvido pelo chefe de polícia de Nova York, William Bratton, o responsável pelo programa “tolerância zero”, o sistema começa a ser implantado no Brasil (polícias de São Paulo e Minas). Nesse sistema, se estabelecem metas a serem cumpridas, e há cobrança dos agentes quanto ao seu cumprimento. Somado a isso, o uso da informática e de softwares auxiliam na criação de uma base de dados a partir dos quais se pode elaborar um planejamento adequado.

Ao mesmo tempo em que muita gente fala em programas sociais como forma de debelar a criminalidade, enquanto se perde tempo com propostas e ações que não deram resultado (a criação da Força Nacional e as leis restritivas ao porte de arma não tiveram nenhum impacto na redução da criminalidade), é alentador saber que há, no Brasil, iniciativas alicerçadas no bom senso, inteligência, planejamento e resultados concretos. Na postagem abaixo, seguem algumas considerações de William Bratton sobre os problemas da polícia brasileira. Esse nó ainda precisa ser desatado, caso queiramos vencer a guerra contra o crime.

Esse é o cara

Entrevista William Bratton

O STEVE JOBS DA POLÍCIA

A crônica americana de grandes feitos empresariais, como a virada da General Electric promovida por Jack Welch, ou a da Apple, de Steve Jobs, tem agora seu similar no ramo da segurança pública. William Bratton, 62 anos, já era famoso quando conseguiu vencer o crime em Nova York, na década passada. Sua mais recente empreitada foi recolocar o Departamento de Polícia de Los Angeles no trilho. Graças a seu talento para estruturar polícias, alcançou fama inigualável entre os policiais do mundo inteiro. No mês passado, ele trocou o comando do LAPD, que ocupou por sete anos, pela carreira de consultor. Suas lições nesse ramo são preciosas. Bratton falou ao editor Ronaldo França, pouco antes de se aposentar, sobre o que falta às polícias brasileiras para que ganhem em eficiência.

SEGURANÇA NO BRASIL
Quando estive no Brasil, em 2002, o país começava a se tornar uma força econômica. Nessa área, o Brasil teve avanços enormes, que não se refletiram na segurança. Eu não sairia do hotel para andar pelas ruas do Rio de Janeiro, como faço nos Estados Unidos. A reputação do Rio é terrível. Eu não iria lá nem a negócios nem como turista.

SALÁRIOS X CORRUPÇÃO
A polícia brasileira, como acontece em diversos países latino-americanos, é terrivelmente mal paga, o que encoraja a corrupção. Os policiais ficam muito suscetíveis a receber propostas de suborno para sustentar sua família. Nos Estados Unidos, os policiais ganham muito bem e pertencem de fato à classe média. No Brasil, os soldados
da Polícia Militar ou os agentes da Polícia Civil são parte da classe social mais baixa. Isso cria uma distância em relação à classe média e aos ricos, provoca grandes dificuldades e
frustração.

"Comecei a carreira como policial. No Brasil, seria um soldado de polícia. Eu jamais conseguiria ascender e me tornar chefe de polícia. Seria no máximo capitão ou major"

POLÍCIA DESMOTIVADA
Vocês têm uma divisão na Polícia Militar em que os policiais são de uma classe social diferente da dos oficiais. Os soldados não podem chegar ao topo. E os policiais civis e investigadores são uma outra classe. Os delegados são advogados. É um sistema extraordinariamente complexo, que não tem a equidade existente na polícia dos Estados Unidos. Eu comecei minha carreira como policial. No Brasil, seria um soldado de polícia. Jamais conseguiria ascender ao cargo de oficial e, depois, ao de chefe de polícia. Seria no máximo capitão ou major. Eu teria de ir a uma faculdade de direito para me tornar delegado. Em meu departamento, todo investigador pode chegar ao posto mais alto da carreira policial. Não ter chance de ascender é algo desestimulante em qualquer carreira. Não haveria por que ser diferente na polícia.

TECNOLOGIA
Ainda há muitas delegacias com aparelhos de fax velhos e máquinas de escrever. Os equipamentos também são muito precários, com veículos em condições terríveis. Esse atraso é extremamente prejudicial. A tecnologia faz parte do coração de um departamento de polícia, claro que operada por pessoal capacitado e bem treinado.

JUSTIÇA
É muito, muito importante que as corporações se relacionem com a Justiça, a promotoria, o sistema penitenciário, todos os elementos que compõem o sistema de justiça criminal. No Brasil, isso não acontece. Já estive no Ceará prestando serviços para o governador Tasso Jereissati, que estava muito empenhado nisso e trabalhando com muita seriedade. Despendemos muito tempo lá, implantamos alguns sistemas e fizemos algumas recomendações. Mas a Justiça é extremamente ineficiente. O sistema de justiça criminal brasileiro é tão desconectado que nem sequer pode ser chamado de sistema. É preciso promover uma profunda mudança, ou não se terá nunca uma boa polícia no Brasil.

Fonte: revista Veja.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Refúgio de bandidos

Mais um artigo do excelente Percival Puggina.


Nosso país está se transformando em valhacouto da bandidagem nacional e internacional. Aqui as FARC têm "embaixador". Aqui se concede refúgio a qualquer delinqüente que exiba no currículo a integração a alguma organização criminosa esquerdista travestida de "social".

O nosso STF, a um formidável custo de dinheiro e de recursos intelectuais, levou meses estudando o caso Battisti. Por fim, depois de horas a fio esfregando flanela no próprio saber e ostentando seu lustro jurídico, os membros da corte deliberaram que sua decisão valia tanto quanto a opinião do senhor que abastecia de água o copo do ministro Gilmar Mendes.

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A esquerda vibrou! Após anos de empenho para retornarmos ao Estado Democrático de Direito, a esquerda vem mostrando o quanto o despreza. Ao expressar seus apoios, deixa evidente que, para ela, coisas como devido processo e cumprimento das leis são papo de burguês. Bom mesmo é meter o pé na porta e puxar o gatilho. Não exagero, não. Ela está para o caso Battisti, para as FARC, para o MST, para o terrorismo islâmico, para o chavismo, etc., assim como a torcida do Flamengo está para o Flamengo.

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Há um poderoso lobby de apoio às ações criminosas desenvolvidas por tais grupos. Cresce, no Brasil, a indulgência de setores da mídia, das instituições de Estado. Esse abraço protetor procede, também, de boa parte do mundo acadêmico, dos cursos de doutorado, da Igreja e do universo da cultura. Azar, leitor, se um grupo invadir propriedade sua, destruir seus bens e o submeter a cárcere privado. Azar seu! Mas se houver intervenção judicial ou policial, imediatamente se erguerão vozes para denunciar a tal "criminalização dos movimentos sociais". De modo ardiloso, invertem os critérios de juízo e a função das instituições. Transformam os réus em vítimas e as vítimas em réus.

Eu pensei que essa esperteza fosse criação da malandragem brasileira. Não é. Procurei no Google as palavras "criminalization of social movements", e encontrei, para espanto meu, mais de 200 mil referências. Em português a coisa saltou para 1,2 milhão. E, em espanhol, passou de dois milhões! Creio que isso basta para evidenciar a força de convencimento que se associa à persistente reiteração de chavões. Ou, dizendo melhor, às estratégias de mistificação para dissuasão.

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Descobri que no Paraguai, na Colômbia e no Peru é a mesma coisa. Mas nosso país vai além. Está se transformando em valhacouto da bandidagem nacional e internacional. Aqui as FARC têm "embaixador". Aqui se concede refúgio a qualquer delinqüente que exiba no currículo a integração a alguma organização criminosa esquerdista travestida de "social".

Quando as forças colombianas bombardearam, em território equatoriano, um reduto das FARC, acabaram apreendendo o famoso notebook de Raúl Reyes. Foi um corre-corre mundial porque havia de tudo ali, informações sobre tráfico, remessas de dinheiro venezuelano, afetuosas mensagens de Reyes para o presidente do Equador, e por aí vai. Entre essas peças, um email do paraguaio Partido Patria Libre celebrando a acolhida proporcionada pelo nosso governo aos companheiros Juan Arrom, Anuncio Martí e Victor Colman.

Quem são eles? Os três pertenciam ao Partido Patria Libre (PPL). Esse grupo, depois de promover vários crimes no Paraguai, deu origem a outro gentil movimento, o Exercito Popular Paraguaio (EPP). Como estavam querendo criminalizá-los por coisas triviais como assalto a banco e sequestro uns fugiram para a Argentina, que lhes deu um pé no traseiro, e outros para o Brasil, que os acolheu de braços abertos. Aqui, só devolvemos, mesmo, perigosos atletas cubanos.

Publicado no Zero Hora, em 22/11/2009.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Vira-bosta




O vira-bosta (Molothrus bonariensis) é um belo pássaro da família dos icterídeos. De plumagem negra-azulada reluzente, com reflexos violeta, gosta de viver em campo aberto e possui hábitos gregários. Vive em todas as regiões do Brasil, sendo também é conhecido como chopim.

É possível observar bandos dessas aves mesmo em ambiente urbano. Aqui em Maceió, por exemplo, já vi bandos a sobrevoar uma das avenidas mais movimentadas da cidade, a Fernandes Lima. Ninguém os nota, pois geralmente não pousam, mas ficam realizando acrobacias no ar, a uma certa altura. É notável o seu canto melodioso, executado em vôo, seja ele solitário ou em bando.

O chopim (ou chupim), apesar da bela plumagem e das belas notas, é ordinário. O que o faz famoso em todo o Brasil é seu peculiar hábito de reprodução. A fêmea da espécie, de plumagem mais feia, pardacenta, não choca seus ovos. O chopim é um nidoparasita, uma ave que coloca seus ovos em ninhos de outras aves para que elas criem seus filhotes.

Uma vez, testemunhei, aqui no quintal de casa, uma pequena garrincha se matando para alimentar um filhotão que era no mínimo duas vezes o seu tamanho. E o desgraçado não parava de piar, pedindo mais comida. E o pior é que já voava. Bem que podia ser mais generoso com sua mãe adotiva e ir cuidar da própria vida.

Essa introdução ornitológica é um pequeno texto explicativo para o comentário que segue, o qual foi feito no blog do Augusto Nunes, e é relativo à entrevista do jornalista com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A entrevista é fundamental para o resgate da verdade, distorcida pelos chupins com estrela vermelha. Nessa querela ornitológica, os tucanos perderam a guerra da propaganda para os chopins (tucano não canta nada mesmo, o barulho que fazem é um crocitar grosseiro, diferente da melodia dos chopins).

Seguem o meu comentário e um trecho da entrevista, onde FHC comenta um episódio da época do lançamento do Plano Real que mostra (o que não é surpresa alguma) o que os vira-bostas têm na cabeça.

(OBS: na natureza, tucanos são predadores de ninhos. Chopim não bota ovo em ninho de tucano, mas tucano devora filhote de chopim. Na política, tucanos são devorados.)

"Quero comida, mais comida!" Pobre tico-tico se esforça para alimentar um filhote voraz que não é seu.


Eu avalio que uma das piores coisas nunca dantes acontecida nesse país foi a derrota de Lula para Collor em 89. Ficamos privados do PT “puro sangue” e de um governo verdadeiramente popular, revolucionário e que não seria guiado pelos “interesses do grande capital”.

Infelizmente, a estabilidade econômica e o crescimento e modernização de outros setores, como o das comunicações, veio antes que pudéssemos ver as teses petistas aplicadas em seu grau mais extremo.

Fomos privados de viver sob um populismo mais puro, sem restrições, bem como sob um estado mais forte, mais inchado e num Brasil mais fechado ao mundo e solidário com um muro prestes a cair (Por onde andava Celso Amorim naquele tempo? Quem sabe, se ele fosse o nosso chanceler, o muro de Berlim não teria caído.).

Infelizmente, a experiência de convivermos na prática com as teses petistas aplicadas sem reservas, não foi possível. Teríamos amadurecido politicamente 40 anos em 4. Talvez estívessemos, hoje, libertos do efeito encantador da retórica oca, demagógica e ufanista destes chupins.

Os chupins aprenderam com a experiência. Perceberam que suas teses, afinal, eram furadas. Chupim que é chupim, não é bobo. Eles não podiam negar a realidade e governar agarrados em seus preconceitos ideológicos. Mantiveram, portanto, a política econômica. Colheram os frutos de árvores cultivadas por outros. Mas, como bons chupins, não reconhecem os méritos alheios. Só o que importa é o poder. E o país, como diz o ex-presidente, “fica pra depois” (e olhe lá).

O grande “mérito” dessa horda foi o de governar seguindo as mesmas diretrizes, mas fazer crer que agiam de forma diferente dos responsáveis pela “herança maldita”. Coisa de chupim. Eles são bons nesse negócio de propaganda, principalmente quando por décadas souberam reforçar os atavismo e preconceitos dos brasileiros com seu discurso mentiroso ininterrupto e sua máquina de calúnias e difamações trabalhando a todo vapor, seja nas redações de jornal ou mesmo até no MP (por onde anda Luís Francisco?).

Os chupins espalharam seus ovos nos fundos de pensão, nas estatais, nas agências reguladoras. Os companheiros ocupam cargos que deveriam ser de técnicos. A classe dos chupins chegou ao paraíso e não tá nem um pouco a fim de abandonar o ninho. Alguns, viraram milionários instantâneos. Nunca dantes na história do nidoparasitismo a burguesia do capital alheio foi tão feliz.

Os tucanos ajeitaram o ninho, a turma do chupins chegou reclamando das acomodações, mas acabou ocupando tudo quanto é espaço. Uma pena que os chupins não tenham tido a oportunidade de tentar reformar o ninho em 89. Seria bom ver chupim tentando trabalhar. Parece que não se pode contrariar as leis da natureza, chupim só aparece mesmo quando o ninho está pronto e a casa arrumada.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Futurologia


Reportagem da revista Época dessa semana traz a avaliação do Dr. Bruce Bueno de Mesquita, cientista político norte-americano, a respeito do resultado da conferência de Copenhague sobre as mudanças climáticas: "será um fracasso".


Mesquita é um misto de matemático e cientista político. É um adepto da Teoria dos Jogos, ramo da matemática que se dedica a fazer previsões com base nas escolhas de pessoas, governos e empresas. Os dados dos "jogadores" (pessoas, governos, empresas) são coletados por questionário e inseridos em programas de computador. O percentual de acerto de Mesquita é de 90%.

Para Mesquita, as pessoas não fazem escolhas pensando nas gerações futuras. O ser humano é imediatista. E ainda mais se for um político.

Sinceramente, não é preciso nenhum cálculo elaborado para perceber que essas reuniões ecológicas e tratados (Rio 92, Kyoto e Copenhague) não dão muito resultado mesmo. Ora, que país ou que povo vai abdicar de crescimento e geração de emprego em prol das "gerações futuras", ainda mais quando o tal aquecimento global (por mais que queiram dizer que não) é um tema controverso?

Há outros interesses por trás do movimento ambientalista, bem mais mesquinhos do que a preocupação com nossos filhos e netos. A hecatombe ambiental iminente é um bom negócio para ongueiros, militantes verdes e a razão da existência de toda uma leva de burocratas que, de outro modo, teriam de procurar outra coisa para fazer.

Os EUA são criticados por não terem aderido ao Protocolo de Kyoto. Os que assinaram, não cumprem, mas livraram-se do desgaste e da crítica. Americanos e chineses já avisaram que não vão reduzir emissões. Lula já apareceu na tv dando um pito no resto do mundo dizendo que "o Brasil já fez a sua parte". É só mais uma mentira e uma performance do presidente-ator ("se a Terra fosse quadrada...").

Se Copenhague começa com Lula soltando fogo pelas ventas e dizendo que "já fizemos nossa parte", precisa de programa de computador para ter a certeza de que o tal encontro é pura pantomima, espetáculo feito para inglês verde ver?

O futurólogo Bueno de Mesquita, no entanto, é otimista em relação ao problema da poluição. Ele acredita que ela será mitigada pela adoção de novas tecnologias de geração de energia, as assim chamadas tecnologias limpas (eólica, solar, hidrelétrica). Só não se mostrou muito otimista em relação ao futuro da candidata Dilma Roussef. Tomara que esteja certo.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Uma foto que viverá na infâmia


Todos por Battisti! Parlamentares "humanistas" visitam Battisti na cela para dar-lhe apoio.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Rádio Belgrado, 21:55.

Há um tempo atrás a banda do quartel do exército perto de minha casa costumava ensaiar pela manhã. Dava para ouvir as músicas daqui de casa.


Não mais ouvi a banda. Quem sabe, foi extinta. Uma das músicas que a banda costumava tocar era Lili Marlene, uma canção romântica alemã.

A história dessa música, transformada em hino de caserna, é interessante. A rádio Belgrado, dominada pelos Alemães durante a Segunda Grande Guerra, costumava transmitir essa música para a Europa e região do mediterrâneo às 21:55 h. A transmissão diária foi o resultado de cartas de soldados e pedido de oficiais (ao que consta, do próprio Erwin Rommel) para que música fosse incorporada à programação da rádio.

A música fez grande sucesso também do lado aliado. Os ingleses sintonizavam a rádio Belgrado para ouvi-la, sem se aterem ao idioma. Posteriormente, surgiu uma versão em inglês e ambos os lados do conflito curtiam a música. Lili Marlene também foi gravada por Marlene Dietrich.

Abaixo, seguem dois clipes, com a versão original e a inglesa da música. A melodia e a história do encontro rápido dum soldado com a namorada sob a luz de um poste em frente ao quartel, enquanto um sentinela lhe enche o saco, parece que confortava quem estava no front. A rádio Belgrado, atendendo a pedidos do Afrika Korps de Rommel, também entreteu os ingleses com a música.

Do norte da África conflagrada, da Europa sob o domínio nazista, do horror da Segunda Guerra, para os ensaios da banda do 59º Batalhão de Infantaria, em Maceió, em tempos de paz.






sábado, 14 de novembro de 2009

O resumo da ópera-bufa: psicologia e política, por Reinaldo Azevedo.

Do blog do Reinaldo Azevedo, um brilhante texto.


LULA, UM POUCO DE PSICOLOGIA, UM POUCO DE POLÍTICA

sábado, 14 de novembro de 2009 | 5:33

Problemas de formação — ou má-formação — de personalidade não escolhem classe social, cor da pele, sexo, nada. Atingem a todos igualmente. Assim é com o complexo de inferioridade, por exemplo. Pode afetar o magnata e o operário — mesmo quando o operário se torna, à sua maneira, um magnata. É o caso de Lula. Toda aquela arrogância, toda aquela jactância, toda aquela bufonaria têm, certamente, uma raiz. A minha hipótese: como ele se sente inferior — e isso nada tem a ver com a sua origem social, reitero —, não há o que o satisfaça, não há elogio que lhe baste, não há reconhecimento que chegue. E como tudo lhe é e será sempre insuficiente, Lula canta as próprias glórias e não vê mal nenhum em ser injusto ou brutal com a biografia daqueles que o antecederam.

Sim, leitores, esta é outra característica das pessoas com déficit de auto-estima e que conseguem vencer a timidez: não vêem nada além do próprio umbigo; não entendem a existência do outro senão na relação consigo mesmas; o mundo externo se define em razão de sua própria existência. No caso de Lula, como se nota, ninguém é poupado: a história do Brasil, o próprio país, FHC e até Barack Obama. Tudo o que há no mundo serve ou para adulá-lo ou para insultá-lo ou para desafiá-lo. Compreendo que o presidente goste, como ele mesmo diz, de uma “branquinha” — na verdade, ele prefere malte escocês. Não deve ser fácil viver assim.

Lula discursou ontem na abertura do 9º Congresso Nacional de Iniciação Científica, na FMU, em São Paulo. Todos já sabemos que “nunca antes na história destepaiz” — expressão que agora tem a versão internacionalmente consagrada pela revista The Economist:“Never before in the history of this country” houve um presidente como ele. Todos já sabemos que a história do Brasil começou no dia 1º de janeiro de 2003. Antes, o país era aquele misto de Vale de Lágrimas com a Caverna dos Ladrões de que falava o PT. Aí tivemos o advento, e o país nasceu. Do nada. Antes de Lula, eram as trevas (ooops!), o caos primitivo, a desordem… Aí ele surgiu e disse: “Fiat lux” (lux?), e o país passou a existir. E, vocês sabem, sem ladrões… Disso tudo, nós já sabíamos.

Nesta sexta, ele resolveu acrescentar ineditismos à sua biografia. Ao discursar, afirmou:
“Pela primeira vez na história do País, um presidente da República vai torcer para o outro dar certo. Lamentavelmente, a prática histórica desse País é quem perde torcer para outro cair em desgraça. Eu, quando deixar a Presidência, vou ser o primeiro presidente a torcer e rezar todo santo dia para quem me suceder fazer muito mais coisas do que eu, o dobro, o triplo.”

Com a devida vênia, trata-se de um discurso politicamente vigarista. Sejamos elementares: Lula não está e jamais esteve na alma de ex-presidentes para saber o que pensavam. Dou um exemplo: o país passava momentos difíceis no fim de 2002 em razão do chamado “risco PT”, pouco importando se ele existia ou não: os mercados haviam posto um preço alto na chegada de Lula ao poder. E FHC usou o seu prestígio junto a organismos multilaterais para garantir a Lula uma transição tranqüila. O PSDB e o então PFL votaram a favor das reformas que o próprio PT havia recusado quando oposição reformas que, de novo, os tais “mercados” julgavam essenciais para o governo ser considerado “de confiança”. Isso é torcer para dar errado? Lembro que a própria base de Lula o deixou na mão.

É impressionante! Lula se diz um presidente como “nunca antes houve na história destepaiz” e já se prepara para ser um “ex-presidente como nunca antes houve na histÓria destepaiz”. No caso em questão, além daquela prepotência típica dos que têm déficit de amor próprio, há a visão troglodita, mentirosa, da história. Uma revista como aEconomist, note-se, faz um especial de capa sobre o Brasil reconhecendo méritos no governo Lula, claro; mas, é óbvio, coloca-o na continuidade de um processo de reformas iniciado em 1994, o que o petista faz questão de negar, contra todas as evidências. Ele usa a soma de seu prestígio com o seu problema de formação de personalidade para distorcer os fatos de modo miserável.

Pessoas com tais características podem ser perigosas, mormente se lideram partidos mais ainda quando esse partido é o PT, que jamais reconheceu qualquer mérito dos adversários. A fala de Lula não se limita apenas ao auto-elogio; ela traz um componente de ameaça velada que a muitos escapará, mas que faço questão de grifar. Ao afirmar “Eu, quando deixar a Presidência, vou ser o primeiro presidente a torcer e rezar todo santo dia para quem me suceder fazer muito mais coisas do que eu, o dobro, o triplo”, está fazendo uma espécie de desafio, que, naturalmente, só terá validade se seu sucessor for um adversário político.

Dilma, já sabemos, será vendida apenas como a nova cara de Lula. O que o PT promete é um governo de continuidade, um terceiro mandatoe, assim, não há algo como “fazer mais ou fazer menos”. Trata-se de um conjunto. E não seria Lula, obviamente, a anunciar caso faça a sua sucessora: “Essa Dilma aí não é de nada!” Essa história de fazer o dobro, de fazer o triplo, é desafio que ele lança ao adversário. Agora pensem: Lula, de tal sorte mitifica e mistifica seu governo que não é possível haver quem faça mais do que ele pela simples e óbvia razão que seria necessário alguém que dissesse mais inverdades do que ele, que mistificasse mais do que ele, que vendesse castelos de ar mais do que ele. E NÃO EXISTE ESSA PESSOA.

AFINAL, NÃO HÁ QUEM POSSA COMPETIR COM A IMAGINAÇÃO MEGALÔMANA E AUTOCENTRADA DE LULA.

Megalômana e autocentrada? Sim! Todos sabem o que penso de Barack Obama. Acho que ele é sintoma, sim, do declínio dos EUA e isso nada tem a ver com a cor de sua pele. Seu discurso, sempre entendi e escrevi aqui muitas vezes, simbolizava e simboliza uma espécie de mergulho dos EUA no utopismo cascateiro do Terceiro Mundo. Só não creio, à diferença de muitos, que aquele país não possa se levantar. Acho que vai. Mas é evidente, o que também já escrevi, que a eleição de Obama é expressão importante de um valor da democracia: a igualdade. Dada a história dos EUA, a eleição de um negro é uma conquista não só de Obama, mas da sociedade americana.

E como Lula vê Obama? Ora, do modo como vê qualquer outra coisa: cotejando-o com… Lula! Leiam outra pérola dita ontem: “Os Estados Unidos acham que são o País das oportunidades. Somos mais que eles. Agora eles têm um presidente negro, mas nunca um torneiro mecânico chegou à Presidência lá.

Dizer o quê? Tolice, vulgaridade, frivolidade. Para começo de conversa, Lula não era mais torneiro-mecânico quando foi eleito havia quase 30 anos. Tornou-se dirigente sindical e depois político profissional vivendo do que a política profissional lhe pagava. Além da ajuda do supercompadre Roberto Teixeira. Antes de Francisco de Oliveira, este escriba pespegou na elite sindical a definição de “nova classe social” — no meu caso, até a batizei: “burguesia do capital alheio”. Lula não foi o primeiro ex-pobre que o Brasil elegeu. Nem mesmo chega ser, infelizmente, o presidente mais ignorante da nossa história.

Quanto a um torneiro-mecânico nos EUA… Aposto que Lincoln, aos 21 anos, era mais ignorante do que Lula. E veio de uma família também humilde. Aos 22 anos, era balconista. Só se tornou advogado aos 27. Aos 48, já era presidente dos EUA. Foi o homem que venceu a guerra civil e que libertou os escravos. Sei que Lula deve achar Lincoln um Zé-Mané. Mas ele não tem o direito, como presidente da República, de falar tanta bobagem. Ocorre que os EUA, felizmente para eles, jamais cultivaram o “pobrismo” como um valor preferem a superação.

Há um componente curioso nessa história toda. Claramente, Lula faz de conta que não houve história antes dele ou, se houve, foi só uma seqüência de desastres. E, se notarem bem, parece-lhe inadmissível que possa haver história depois dele. Quando afirma que o sucessor tem de realizar o dobro ou o triplo de suas conquistas imaginárias, já está se preparando para fazer com os que o sucederem o que faz com os que o precederam: eliminá-los da história.

Lula deveria agradecer todos os dias a Deus por ter sido derrotado em 1989, em 1994 e em 1998. Em especial, como escreveu a Economist, deveria ser grato a FHC, que lhe entregou um país com reformas essenciais já feitas — algumas, inclusive, custaram popularidade —, sempre lembrando que o PT torcia para que tudo desse errado e antevia o caos, como fez quando o Plano Real foi lançado.

Lula pode ser popular o quanto for; pode ser até faça a sua sucessora, vamos ver… E daí? Isso não muda o fato de que seu discurso distorce a história, deforma a política e deixa o país menos inteligente. E não há como esse procedimento não comprometer nosso futuro. Ainda que eu fosse o único a dizê-lo, a realidade não seria diferente por isso. Mas eu não sou. E eles sabem disso.

PS - Lula resolveu arrostar, anteontem, até com a Terra, o planeta mesmo. Atribuiu alguns dos problemas decorrentes da poluição ao fato de ela ser redonda. “Se fosse quadrada…”, conjecturou… Suas ambições já se voltam para o Sistema Solar. E tudo, no fundo, porque, contrariando as aparências, Lula não consegue gostar de si mesmo. Não é preciso ser muito bidu para intuir que ele gostaria mesmo era de ser FHC. E só por isso tenta eliminar o outro da história do Brasil.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Gina Kolata

Entrevista com a editora de ciências do New York Times, Gina Kolata, que largou a carreira de virologista para se dedicar ao jornalismo. Respeitada, Gina mostra o quanto é sem fundamento essa pendenga sobre a exigência de diploma específico para ser jornalista no Brasil.